A Rapariga Pensativa
21 Fev 2021

Que tempos são estes? Estamos há quase um ano em pandemia e isso tem-me levado a uma introspecção mais profunda. Desde sempre estive habituada a estar sozinha com os meus pensamentos, porque quando estamos a pintar, esse momento criativo, é muito solitário. Portanto sempre fui muito de, durante esses momentos, refletir sobre a multiplicidade de assuntos que assoberbam a minha mente, que podem ir de questões pessoais a visões mais globais. Esses momentos para mim são preciosos. Gosto de companhia e sou faladora, e adoro uma boa jantarada. Mas dou preferencia a estar sozinha no meu atelier a criar. Embora adore e sinta saudades dos tempos em que pintava em companhia, com outros poucos artistas, que da mesma forma, embora estando a partilhar o mesmo espaço, estava cada um no seu processo criativo solitário.

Mas se eu já sinto a falta do contacto (não físico necessariamente) mas de poder estar com amigos, em casa e em espaços diferentes, imagino quem não tem esse à vontade para conviver com a solidão. Somos efetivamente um ser social, a grande maioria de nós, e precisamos do convívio para manter a nossa sanidade. Precisamos de ouvir os outros nas suas opiniões dos temas mais mundanos às perspectivas mais realistas contemporâneas. Precisamos de nos relacionar, e estar, e falar, e escutar.

E precisamos de aprender a valorizar todos esses momentos que antes tomávamos como uma garantia absoluta.

E quando pintei esta rapariga a pensar, ela no seu espaço, com as lãs a seu lado, quase descartadas, não imaginava como poderia ser possível estarmos hoje na situação em que estamos. Hoje olho para ela e penso como ela deve estar tão entediada que nem o tricot a entretém mais. O processo repetitivo das tarefas, mesmo aquelas que mais gosta, estão a tornar-se apenas a mensagem presente do isolamento.

A solidão não deve ser fácil, e tantos de nós devemos estar a passar por isso. E o mais triste nisto tudo é que quase um ano depois quando poderíamos com força conjunta já ter resolvido tudo isto, aqui estamos porque existem ainda aqueles que na sua fraqueza, não conseguiram resistir, e quebraram as regras, e acharam que a eles não lhes tocaria nunca. E teve que se impor um castigo a todos.

Eu ainda tenho esperança e aguardo, que sejamos capazes de quando este confinamento terminar, manter a distância que ainda será necessária, e usar a máscara corretamente porque não sabemos quem pode ter estado com alguém que seja um contacto de risco , e lavar e desinfetar as mãos porque não sabemos por onde andaram as mãos que tocaram onde vamos tocar. E de sermos responsáveis e conscientes, para permitirmos nós mais jovens, que os velhotes que hoje choram de felicidade quando levam uma vacina, porque é o primeiro contacto social que têm desde há tanto tempo, possam voltar a sair e a socializar, depois de tanto tempo isolados. Que o possam fazer em segurança. Que não sejamos responsáveis não só por proliferar a doença, como de manter tantas pessoas em isolamento porque só olhámos ao mundo que se rege pelo nosso umbigo.

E hoje olho para a rapariga pensativa e acho que ela deve estar a pensar e a julgar tudo isso. Ou então sou só eu que julgo.

Publicado em: Ilustração

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